MEMÓRIAS-QUEBRADA

Guaianases: herança afrodiaspórica das travessias negras

Campos de Piratininga
Estrada do Imperador
Estrada da Passagem Funda
Caminho das Minas
Estrada dos Tropeiras
Linha 11 Coral

A Subprefeitura de Guaianases, composta pelo distrito homônimo e o Lajeado, ainda hoje é marcada por ser lugar de passagem, pendularidade e fluxo. Historicamente de passagem, a região "alojado no vale do rio Itaquera-Mirim" (Azevedo, 1958, p. 173) foi o caminho dos indígenas Guaianás, povos nômades que alimentavam-se dos rios e das matas antes de serem capturados, aldeados e mortos pelos jesuítas de São Miguel (Jornada do Patrimônio/CPDOC Guaianás, 2024). Também foi por onde passou D. Pedro II, tropeiros e demais interessados na extração das riquezas da terra - fosse coisa ou gente "coisificada" - abundantes à época.

Quatorze anos depois da primeira missa realizada na Capela de Santa Cruz do Lajeado, em 3 de maio de 1861, passa a todo vapor -- por cima da Estrada dos Guaianases -- a Central do Brasil, carregando uma massa de imigrantes e sonhos de uma alvorada alva.

Assim, pela santa trindade igreja (inauguração da capela), desenvolvimento (a estrada de ferro) e ideologia (da superioridade europiea) inventa-se um marco para o então Lajeado: parido pela missa e cuidado por imigrantes (principalmente brancos), ainda presentes na memória asfáltica da Zona Leste; como é o caso da Estrada do Iguatemi, "do tupi antigo, ygatĩ'y, que significa rio das canoas emproadas" (IHGMS), rebatizada de Avenida Ragueb Chohfi (Decreto nº 22.728, de 8/09/1986), em homenagem a um dos mais bem sucedidos comerciantes sírios do século XX.

As homenagens às ditas famílias importantes não se limitam ao traçado urbano, estão também na nomenclatura de diversas instituições como escolas e hospitais. Junto de outras "figuras ilustres": ditadores, militares, bandeirantes, monarcas etc., perduram nos espaços urbanos e no senso comum a memória das "grandes histórias". É nesse contexto que a historiadora Sheila Alice Gomes da Silva (2019) denuncia as tentativas de apagamento da presença negra em Guaianases e evoca as "historias miúdas" a fim de empretecer as narrativas.

Se as linhas da História Oficial bordam em branco as bordas da metrópole, o cotidiano é bem mais colorido. Se nas antigas olarias e pedreiras o castellano é enaltecido, junto ao italiano das fábricas e dos comércios, hoje compartilhamos uma pluralidade que nos escapa. Venezuelanos, bolivianos, peruanos caminham pelas ruas e seus espanhóis dançam com os sotaques mineiros, paraenses, cearenses, paraibanos, com os portugueses cabo-verdianos e angolanos, num portunhol vivo salpicado de créole haitiano.

Num mesmo quarteirão pode-se escutar uma missa em francês e português, enquanto que um pastor reclama do escapamento aberto das meiotas que rumam para o fluxo mais próximo. No alto da laje as marretas marcam o ritmo da mais nova sofrência sobre sentimentos já velhos - amor, desejo, traição, saudade. O suor escorre pela tez dos que levantam paredes e dos que, entre paredes já prontas, batucam e incorporam seus guias e orixás.

E para os que não são de axé é sempre possível aprender com pretos-velhos encarnados: na feira, nas calçadas, nas festividades, nos botecos, nas filas do mercado, nas receitas, temperos e mandingas, ou no vai-e-vem do trem.

No movimento da vida cotidiana somos invadidos pela cidade toda, não apenas São Paulo, mas as cidades do mundo, das quais partem em busca de uma nova história os que fazem a história e a geografia de Guaianases. E se é perceptível aos sentidos a pluralidade de manifestações socioculturais também o é as nuances de raça e classe.

Seja do lado de cá ou de lá do córrego Itaquera-Mirim, que marca o limite entre Lajeado e Guaianases, a presença negra é predominante. Se as retinas são insuficienetes, apeguemo-nos nas estatísticas: no Lajeado 56,2% dos habitantes se autodeclaram negros, já em Guaianases esse percentual é de 51,5% (Mapa da Desigualdade, 2024); o que faz de ambos os distritos dois dos dez mais negros da capital.

O enegrecimento e a periferização do território são fenômenos indissociáveis e remontam aos movimentos migratórios da década de 1950, período no qual, sobretudo, mineiros e nordestinos (principalmente da Bahia e de Pernambuco) migraram para cá. Somam-se à migração inter-regional os deslocamentos intraurbanos, marcadas pelo desfavelamento e expulsão das populações pobres e negras dos centros e das áreas de especulação imobiliária, como o que ocorreu na favela do Canindé e levou à lamúria da vizinha de Carolina Maria de Jesus, a Dona Angelina Preta que, não suportando mais morar na rua A, decidiu vender o barraco e se mudar para Guaianases (registro de 7 de julho de 1959).

Isto não significa dizer que na origem dos distritos não haviam negros. O regresso à chegada da Estrada de Ferro Central do Brasil, que fragmentou o Lajeado em Velho e Novo, dá-nos pistas desta presença.

Com a fragmentação do território uma nova igreja de Santa Cruz foi inaugurada, em 1879, próxima aos comércios no entorno da estação. Assim, a primeira Igreja de Santa Cruz passa a se chamar Igreja de Santa Quitéria (Lajeado Velho), em alusão a uma mulher negra escravizada que fugiu dos padres carmelitas nos arredores de São Miguel Paulista. Se o projeto societário era embranquecer, por que homenagear a força negra? São questões que deixamos para a imaginação.

O fato é que Guaianases recebeu e continua recebendo os que têm negado o direito à terra: seja os favelados, os moradores de áreas de risco, as pessoas em situação de rua, enfim, os tidos como “atravancadores” do progresso imobiliário e financeiro. Desde a Lei de Terras (1850), passando pelos projetos e operações urbanas, até a proibição/criminalização de gozar a rua - como almejado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do funk -, a periferia tornou-se um coração de mãe para os cidadãos mutilados (Santos, 1996-1997).

Porém, mesmo que cada esquina ou viela, chão ou ponte esteja abarrotado de negros alguns imaginam, outros até se arriscam a afirmar, uma homogeneidade na periferia. A precariedade das construções, a parca renda e a abundante violência, o desemprego ou a inserção degradada no mercado de trabalho dão o tom de uma conversa que ruma para a seguinte conclusão: a periferia é onde os espoliados urbanos (Kowarick, 1979) sobrevivem, dormem e quando possível comem. A explicação: um problema socioeconômico. A solução: uma mudança socioeconômica.

A explicação crítica dos problemas urbanos, sob orientação estritamente econômica, compartilha com os conservadores dos problemas o silêncio sobre a raça. Fosse a pretiferia um problema somente econômico, como explicar que as favelas, beiras dos córregos e ocupações irregulares em Guaianases, seguindo o movimento geral da cidade, concentram a população negra? Se a pobreza é a questão primordial, por que a precariedade na precariedade tem tanta melanina?

Guaianases é uma periferia, verdade. Autoconstruída com muito suor e luta, nas brechas do roubo do tempo de vida pela superexploração do trabalhador. E quem luta, sua e sangra tem rosto, nome, cheiro e cor. Guaianases, mesmo que muitas, é preta: pretiférica. Guaianases é plural, é verdade. Terra de espanhóis, portugueses e italianos, e dos que por estas nações foram colonizados, explorados e descartados na alvorada do capitalismo. Guaianases é o quintal ou a laje das heranças afrodiaspóricas (Montezuma, 2023): do batuque funkeiro e macumbeiro, das receitas apimentadas e bem temperadas, das brincadeiras de pés descalços, das mães-pretas, dos manos e das minas de quebrada; e em cada pedaço dessas vidas há histórias, sonhos e coisas incapturáveis, inexplicáveis; coisas imensas como a noite e o Atlântico. Guaianases não dorme e não morre, permanece viva, vivona e vivendo!

Essas memórias-quebrada são um convite. Porém, se anseia conhecer GuaianaCity pegue a Linha 11 Coral, desça as escadas ou rampas, saia pelas catracas, passe pelos pútridos córregos, caminhe pelas vielas, coma uma pamonha, beba numa adega, admire uma espada de São Jorge plantada num pneu, escute um som sentado na laje e olhe para o mar vermelho de blocos baianos, empilhados por baianos, rejuntados por pernambucanas, pintado por mineiros, onde paraibanas criam seus filhos, angolanas misturam temperos e, mais importante que tudo isto escute: os que dão vida ao concreto armado.


Entre a festa e o trabalho

Festa

Há quem diga que a periferia é um bairro-dormitório, quando a "massa" trabalhadora não está apanhando descansa, para ser enformada na lataria do trem no dia seguinte. Mas você já tentou dormir nos extremos da cidade? Escute! É a festa dos insubmissos, é o fluxo, vem! E também o rap, o samba, o forró, toda a musicalidade pretiférica: afrobrasileira, afroindíngena, caipira, sagrada e profana para deixar atento até os que estão moscando e não percebem que a pretiferia é São Paulo: não dorme nunca!


Trabalho

Ó patroa, ó patrão! É o trabalho na sua porta, na sua rua, a mercadoria na sua mão! Desce Seu Paulo, o Homem do Quebra-Queixo, com a formada equilibrada na cabeça de fios brancos por debaixo do semi-turbante igualmente branco, enfeitiçando a criançada com o batuque da sua caixa. Os transeuntes caminham, o trabalho também. Pelas ladeiras esburacadas desce a bicicleta do pão, as tias do yakult com seus carrinhos suados e calos na mão. Nas garagens apertadas, sobre lonas e panos, nas barracas ou em alvenaria a pretiferia trabalha noite e dia: conserta, cria, cozinha, faz rolo, bolo e bola estratégias para complementar a renda, edifica puxados de fundo e de céu para “viver” de aluguel. Na Linha 11 Coral há os que vão para a labuta e os que labutam no vai e vem, é o shopping-trem. E os que ficam, olhe, olhe bem: elas e eles estão ralando também.


Referências

AZEVEDO, Aroldo de (Org.). A cidade de São Paulo: estudos de geografia urbana. – Os subúrbios paulistanos (v. 4). São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1958.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2020.

KOWARICK, Lúcio. A espoliação urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

MONTEZUMA, Rita. Sobre Geografia(s) e quintais. Giramundo: Revista de Geografia do Colégio Pedro II, v. 10, n. 20, p. 19–28, jul./dez. 2023. DOI: <doi.org/10.33025/grgcp2.v10i20.4444>.

PREFEITURA CAMPO GRANDE. Qual o significado etimológico de Iguatemi? Instituto Histórico e Geográfico do Mato Grosso do Sul. Disponível em: <ihgms.org.br/vc-sabia/qual-o-significado-etimologico-de-iguatemi-271>

PREFEITURA SÃO PAULO. Avenida Ragueb Chohfi. Dic.Ruas. Disponível em: <dicionarioderuas.prefeitura.sp.gov.br/historia-da-rua/avenida-ragueb-chohfi>

PREFEITURA SÃO PAULO. Histórico - Subprefeitura de Guaianases. Disponível em: <prefeitura.sp.gov.br/web/guaianases/w/historico/151>

REDE NOSSA SÃO PAULO. Mapa da Desigualdade - 2024. São Paulo, 2024.

SANTOS, Milton. As cidadanias mutiladas. In: Vários Autores. O preconceito. São Paulo: IMESP, 1996-1997, p. 133-144.

SÃO PAULO. Decreto nº 22.728, de 8 de setembro de 1986. Dispões sobre alteração de denominação de logradouro público. São Paulo, 8 de setembro de 1986. Disponível em: <leismunicipais.com.br/a/sp/s/sao-paulo/decreto/1986/2273/22728/decreto-n-22728-1986-dispoe-sobre-alteracao-de-denominacao-de-logradouro-publico>

SILVA, Ricardo Barbosa da. Caminhos ancestrais de São Paulo: movimento na formação de uma metrópole periférica. PatryTer – Revista Latinoamericana e Caribenha de Geografia e Humanidades, v. 9, n. 17, jan./2026. Disponível em: <periodicos.unb.br/index.php/patryter/article/view/59992/43803>.

SILVA, Sheila Alice Gomes da. Negros em Guaianases: cultura e memória. São Paulo: EDUC, 2019.

Seu Paulo. O HOMEM DO QUEBRA QUEIXO. Vídeo (8min18seg). Publicado por Almir Rogerio [YouTube]. 13 nov. 2015. Produzido por estudantes da EE Rocca Dordall. Disponível em: <youtube.com/watch?v=Ri2vPe7JLaY>