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por que eu amo andar de bicicleta

· pessoal

quando eu mudei pra Nova York, eu comprei uma bicicleta. a chamo de bici ou de cleide porque o nome completo dela é, como se imagina, bicicleide1.

enfim, eu e bici começamos uma linda amizade. quando eu digo linda amizade, digo linda amizade mesmo. por causa da bicicleta, a minha relação com a cidade mudou completamente. o caminho da minha casa até o trabalho passa pelo meio de um parque no qual às vezes eu posso parar pra sentar e ler um pouco se estou adiantada. eu posso parar, deitar no chão e olhar pras árvores se eu cansei demais num dia específico. eu posso só respirar fundo e ficar uns 5 minutos à toa.

eu nem me importo com os carros às vezes querendo tirar um fino de mim, eu nem me importo com as pessoas surgindo do nada na ciclovia, eu nem me importo com os carros todos estacionados na ciclovia. nada me abala quando eu estou pedalando e eu recentemente comecei a pensar mais sobre isso. por que nada me abala??? eu vejo gente que fica tão brava, tão estressada, que tem tanto medo…

nesse verão de 2026, vim pra São Francisco e, por muita sorte e também um alinhamento fundamental de planetas, a minha colega de quarto me emprestou a bicicleta dela. significa que estou respirando fundo e lutando contra as ladeiras da cidade pra me locomover. mais uma vez, nada me abala. as subidas com certeza me cansam, mas não me desmotivam. e por quê?

acho que pra mim é sobre liberdade. eu amo a sensação de depender apenas do meu corpo e poder parar quando eu quiser pra descansar. eu amo poder ser o delivery da minha casa e ir buscar absolutamente qualquer coisa na minha bicicleta. eu amo poder sair e ficar horas só passeando. vou pra praia, vou pro mato, vou pro trabalho, vou pra um café, vou pra onde eu quiser. movimento constante.

eu amo andar de bicicleta e eu espero fazer isso pro resto da minha vida. esse post é uma carta de amor pra minha bici.

eu tinha um carro em São Paulo. eu gostava de poder ir e vir, carregar móvel e a compra do mês, ir visitar minha família em outra cidade, mas eu me incomodava muito com estar parada no trânsito, vendo a vida passar. eu também sentia muita responsabilidade com o carro. a bicicleta é você e suas perninhas. a maior velocidade que você chega é a maior velocidade que suas pernas conseguem pedalar. eu nunca vou estar a 100 km/h e eu nem quero estar. quando você anda de bicicleta, você percebe o quão rápido é 40 km/h e o quão fácil é se machucar. isso te torna mais consciente sobre você e os outros. no conforto do carro, ir mais rápido é sempre natural.

existe algo muito libertador em poder ir onde se queira, mas ao mesmo tempo ser limitado pelo seu esforço. é gratificante chegar em um lugar e sentir que você chegou lá. não tem sensação melhor do que terminar uma ladeira e respirar fundo. sentir o vento no rosto numa descida, sentir o sol na pele e poder parar pra se refrescar. pedalar devagar e só curtir. pedalar rápido e se sentir conectada com a bicicleta.

e eu nem me importo com a competição e com os equipamentos. não preciso da bicicleta mais foda, não preciso ser a primeira a chegar, só preciso chegar.


  1. (nenhuma dessas informações é relevante, mas foda-se o utilitarismo.) ↩